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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ADEUS

Hoje me despedi de um grande amigo. Ele partiu nos meus braços – impotentes devo dizer – perto dos quais ele sempre esteve. Senti sua respiração fraca e os movimentos involuntários causados por sua doença terminal. Neste exato momento não sei se fiz bem ou mal, mas decidi por sua partida – imagino que ele teria feito o mesmo por mim. É uma verdade querida e incontestável que os cães são leais aos seus amigos humanos, sem nada exigir em troca, com diz o sábio adágio: “amigo é aquele que nos quer apesar de nada”. Para um cão – e esta também já é uma verdade conhecida – não importa se você é rico ou pobre, negro ou branco, desprendido ou um egocêntrico materialista; ele vai te amar da mesma forma. E se um cão não tem alma – como defendem alguns – e não pode amar, quem então o pode? A saudade dele ficará como uma lembrança profunda dos momentos inesquecíveis que dividimos ao longo de sua breve vida de oito anos. Os momentos em que perdi a paciência com seu latido agudo e insistente, seu esbravejar com os intrusos ‘convidados’ a passar por seu território ‘restrito’. Era alegre e esperto desde o primeiro dia em que chegou a nossa casa, grunhindo por ter se separado da mãe. Ele era um presente para minha filha – e que ironia – morreu no aniversário de dez anos dela, mas acabou sendo um presente para todos. Foi-se meu amigo e ficou o sabor amargo – para mim – de quem poderia ter feito melhor, dado mais valor, carinho e afeição. Ao menos no quantitativo em que recebi. Sempre doses exageradas de amor e companheirismo. Resta apenas esse meu gesto de palavras: adeus amigo. Adeus meu “cãozinho preto e marrom chamado Sansão”. Como é preciso terminar o que se começa – e isso se chama objetivo – descrevo uma cena do filme ‘amor além da vida’ com Robin William, quando após a morte ele se depara com um mundo maravilhoso e encontra-se com o animal de estimação da filha que também havia morrido e diz: “eu estou no céu dos cães” – e deve ser assim. Deve ser assim!

terça-feira, 29 de maio de 2012

NÃO ME BASTO DE MIM SEM TI

Que evolução do cosmo nas micro partículas místicas nos trouxe ao intricado presente? Oh nobre artesão que formou teu corpo inteiro desta carne substanciosa e fremida Ah que devorador de teus desejos ocultos me tornei no auge da febre noturna. Ora os teus olhos de retoque tão sutil de um traçado sedoso, levemente inclinados na direção do sol. Ah eles são os sóis em minhas micro galáxias devastadas e distantes O teu sorriso carente de uma estética alheia – e para mim indiferente Se reveste de uma beleza singular ao repetir-se e repetir-se. Luminosidade! O leve arqueado dos ombros suportam o peso da minha paixão excessiva, A paixão é sempre excessiva – ranhuras incuráveis na alma, marcas indeléveis. Que seio velado! Ah, apenas um vislumbre! O complemento exato para um doce coração. Gravidade! Teus braços se alongam. Tentáculos a atrair todos os meus abraços Compacta satisfação do calor, da proximidade, do hálito, fôlego profundo! A minha leitura desejosa do toque de tuas rústicas protuberâncias. O segredo De tuas ancas a precipitar-me numa extensão poderosa ao prazer que se esconde Nas curvaturas que se entrelaçam à poderosa imagem da divindade palpável e simples Fora eu essa linha tênue entre a imagem e a realidade repleta de negações! Ainda os teus olhos! Eles cantam essa música invisível, serena. A melodia É a música que me conduz de um lado a outro num turbilhão de emoções Para os vagalhões abissais desse mar que se oculta num segredo que partilhamos. És uma das sereias homéricas e eu tão distante de um lar ideal. Ah meu ideal! Já não há como fugir de ti, idéia fixa de minha obstinada e ainda lúcida mente. Sorrio quando teus olhos sorriem numa efusão repleta de flocos de neve Perfeitos flocos de neve na sua geometria idealizada pelo teu artesão. Nobre cristal! Perfeitos flocos de neve tão pura e doce como teus lábios apesar de rosáceos. Ah teu corpo mulher! Dança, dança numa coreografia moderna e proporcional. A magia com que te vejo no movimento do mundo em transitoriedade alheia. Teus lábios se compungem, distraem e contraem. Movimento obtuso e frenético Com toda a carga de tuas ansiedades misturadas ao sonho, o sonho singular. Ah se o teu sonho fora o meu sonho, o sonho de um homem pequeno e simples O sonho e a razão do poeta falido com suas esgotadas palavras. Foram tantas! Enfim me rendo à saudade, ao desespero e a desilusão de quem não foi amado Enquanto o pêndulo da vida segue, e vagarosamente, minhas luzes se apagam. Fim!

sábado, 14 de abril de 2012

NA COZINHA

Música, a vida e feita de “música” e a música da vida é a vida de todos nós. Pequenos trechos desta vida é composta do que fazemos, do que consentimos que se faça e até mesmo daquilo que nos contradiz – esta é a música que não nos agrada. É pensando um pouco nessa melodia – a que me agrada – que estou na cozinha, preparando uma refeição simples e – acho – saborosa para compartilhar. Talvez como um ritual se que perpetua, enquanto separo a matéria prima de minha arte simples: ingredientes, condimentos e panelas – alias, preciso comprar umas panelas decentes, talvez adquira um jogo de panelas retrô esmaltadas e coloridas – ouço música, daquela que compõe nossa universo de “música” essa porem tocada e cantada. Preparo uma massa comum e tradicional e nada mais justo que ouvir um italiano, o melhor dos italianos, Andrea Bocelli.
Enquanto cozinho penso em todas as coisas boas que devo misturar – no preparo e na vida, como se aquilo que estou a fazer fora um presente, o que na verdade o é; um presente para mim mesmo para aqueles que me acompanham e – principalmente – para ti, que na distancia me inspiras com teus olhos, com teu gosto, com teu pedido de que preparasse e te “trouxesse” algo de bom, com teu sorriso e com o modo que você me olha ou observa na penumbra de tua censura a mim tão cara; portanto, não te ofereço algo bom, ofereço-te algo especial enquanto escuto a “Romanza”. Deixo as coisas separadas e organizadas na bancada. A mesa limpa com uma fruteira sorridente e repleta – acabo de degustar uma Pêra –essa fruta era considerada um aperitivo dos deuses. Será por isso que o formato dela me lembra a formosura feminina? Ouço “Per amore” , lavo as mãos e conduzo os olhos através da janela – meu cachorro que outro dia estava melancólico, agora late; acho que não gosta de música italiana – ; as cebolas com suas varias camadas de desgosto me fazem chorar enquanto recoloco a primeira musica “Con te partiro”, choro pela cebola, apesar de poder chorar por tua “partiro”. As tomates estão meio pálidas mas servem como complemento ao tempero pronto – preciso aprender um molho caseiro – a saudade aperta enquanto organizo as especiarias que me permitem um sabor peculiar no que faço, apesar de sempre acabar falhando, mesmo com todo o empenho. Estou em “II Mare Calmo Della Sera” e pela terceira vez – da música – começo a organizar todos os componentes para finalmente levar ao forno. Reorganizo as coisas, tomo um gole de refrigerante – gostaria que fora um vinho – enquanto meus sentidos e minha mente pairam por algum lugar a procura de tua presença. Este meu sentimento por aquilo que me é alheio, proibido e quase impossível, me mostra como num espelho de verdades ocultas que sou um “Miserere” – esta também é música que já repeti por dez vezes. Só tenho este disco em italiano! Tudo pronto eu agradeço como por uma prece tácita. A lasanha à bolonhesa está pronta, falta o produto da vinícola e você. Levo um pedaço de mim para tua distância. Fim da música.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PRAZERES

Cozinhava um delicioso strogonoff , ouvindo uma coletânea dos Doors – Light my Fire, enquanto meu cachorro Marllow, um spaniel preguiçoso está esparramado na porta com se fora um tapete de peles. Minha biblioteca, que acabei de pintar com um lilás fosco, aguarda; não completamente bagunçada, porém um pouco desajeitada. Lá fora, os “irmãos” realizam um desses cultos ao ar livre. Está quente e é um domingo sem final de campeonato. Mais tarde um pequeno bolo entre os amigos marcará mais um ano de vida completado por meu pai. Entre os livros e a panela, volta para incrementar o tempero da carne com um curry e constato pela quarta vez que não comprei coentro. A coletânea já está em “Raiders on the storm”. Um aroma muito bom penetra minhas narinas no mesmo instante em que uma confusão de sons entre minha música e o culto dos irmãos se junta ao caos de um domingo movimentado. Meu estômago reclama do horário avançado. Outro cachorro late ao portão simultaneamente a pergunta de minha mãe: “ já almoçaram?”. Respondo que estou cozinhando. O cachorro continua a latir até que ela se afasta. Estou quase pronto – talvez eu ouça Miles Davis enquanto saboreio um bom prato com um tinto Saint German. Termino a refeição com uma satisfação solitária. A preguiça do meu spaniel que continua deitado no limiar da porta começa a me contagiar. Com uma sonolência morosa, fito uma gravura da esfinge de Gizé na parede a minha frente. “The end” é a faixa final da coletânea. “This is the end”.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

poesia contempolivre: REQUIEM

poesia contempolivre: REQUIEM

MEU CORPO PERGUNTA

Se pudesse te impressionar com poesia
Seria ela gratuíta?
Ou de valor se revestiria?
O que teu corpo
Desnudado
me diria?

REQUIEM

Sobre teu corpo de papiro nu
Sobre a seda chinesa de tua penugem eriçada
escreverei meu último poema
com versos contados em que não caíbam mais palavras.

E com o artifício de meus dedos em tinta
Serei o artesão do verso perfeito e ditoso
A sorver o divino néctar de teus amores.

E ao alvorecer de um novo dia estarás
Pasmada na embriaguez de toda minha arte
que se esvaiu em apenas um crepúsculo,
e consumiu-se em nossos suspiros e lamúrias,
na perfeita fusão do artista e sua esgotada arte.

Depois de teu corpo inteiro consumido em versos
Não há poesia que se falar ou canção para se cantar.

domingo, 20 de março de 2011

LOVE STRANGE

Gostosinha como só a mulher alheia consegue ser
A garota desliza com seus quadris em volta
Dos livros novinhos de cheiros diferentes como um jardim
Sob o luar do inicio da primavera.
As luzes artificiais parecem perfeitas
Como perfeitas as flores como perfeita a lua
Como perfeita a noite com a lua
Perfeito espelho a refletir-te perfeita mulher
Tão gostosinha ao redor dos livros
Como só a mulher alheia tem que ser
Vejo-te de um relance quase perdido
[ caso continuasse a ler.

SOBRE MUDANÇA

Decidi e essa é – nem tanto a palavra – ; mas a atitude que dá ou procura um novo sentido para a vida, como se a vida dela carecesse para se metamorfosear. Tenho novas borboletas! Decidi aprender francês, interesse que já me levara a começar um curso a tempos atrás e interrompe-lo por motivo que não foi a falta de vontade. Decidi aprender a preparar um prato novo. Uma sugestão: não sei “fazer” o “um” feijão e isso não quer dizer que eu via fazer feijão. Apesar de eu já ter me gabado de um simples arroz, do macarrão alho e óleo com alguns ingredientes a mais e de um strogonoff simples, mas realmente delicioso e de ter deixado algumas senhoritas com água na boca; não sou cozinheiro. Ah, já ia me esquecendo! Também faço uma omelete com mussarela – e bem sei que não é assim que se escreve – que realmente é muito boa. A mudança já está aqui, mas de modo ainda muito incipiente. A ‘decisão’ de decidir mudar já foi tomada. Espero sinceramente que ela adquira força cada vez mais crescente e atinja magnitudes nunca alcançadas por minha vontade que sempre fraquejou em meio aos obstáculos e as inúmeras frustrações. Quero dizer, ou melhor, esclarecer que tal semente de casualidade a produzir tais frutos foi implantada de modo sincero e apaixonante por uma mulher, radiante como o por do sol no coliseu de Roma ou as luzes que convidam à noite sob a gigantesca torre Eiffel. O paraíso está logo adiante, mas acredito que seja necessário passar pelo inferno e pelo purgatório do cotidiano amadurecer com suas arrasadoras correntes mornas.

FIM DE NOITE

No término do dia que se chama hoje
Em que a noite transparecia ao vento frio
Olho para o espelho das prateleiras
Que refletem uma porção da minha alma
No ar que respiro, nos sons que me invadem
Imersos nos encartes compact disc.

[Fui a livraria] e em meio a multidão
que fluía hipnotizada, apenas um rosto eu via
O rosto daquela doce lembrança, escarafunchado
Em minhas partes intimas e secretas, repleta
Da minha excitação que caminha
Sobre o tapete quadriculado do jogo cruel.
Sim, hoje fui a livraria e seu rosto era.
O único que eu via no meu mar de solidão.

sexta-feira, 18 de março de 2011

DESCONFORTO

Não sei se você já se sentiu assim, mas hoje – como é até comum – não estou cansado dos outros. Estou, ou sinto-me cansado de mim mesmo. Alguma coisa aqui dentro, talvez minha alma ou uma coisa que se chama coração esteja clamando desesperadamente por silêncio e talvez esse seja o modos operandi mais improvável para se alcançar silêncio. Ao dormir eu planejei como acordar. Acionei o dispositivo eletrônico de um celular que não é meu, coloquei o pijama recém lavado e ainda com uma fragrância suave de amaciante e por fim recostei a cabeça no travesseiro desconfortável comprado numa liquidação. Se quer ouvi o despertador com sua sonoridade irritante escolhida propositalmente para evitar a vontade de ignorá-lo e continuar dormindo. Sinto-me como Zeus quando Prometeu lhe roubou o fogo do conhecimento divino. Esqueçam. Talvez a figura seja entendida melhor de modo inverso; dessa forma, me sinto como Prometeu ao ser punido por roubar o fogo de Zeus. Sofro e é por causa do fogo, seja em qual ordem for e isso torna o sono uma pequena tormenta, uma batalha desesperada do inconsciente para compor um retrato com milhares de fragmentos.

segunda-feira, 14 de março de 2011

CIRCUNSTANCIAL

Hoje, presenciei uma injustiça sendo cometida. Não! Muito mais que uma injustiça, utilizando a maçante linguagem jurídica: houve elemento típico, um crime propriamente dito, mas resolvi ignorar apesar de todos os consequentes problemas noturnos de consciência. Talvez pela simples conveniência de não perder o ônibus e ter que esperar o próximo.
Três homens que hodiernamente exercem uma profissão ou atividade de relevante valor social. Eram coletores de lixo, comumente chamados de "lixeiros"; palavra ou substantivo que significaria, numa terminologia científica mais acurada, mais técnica: "especialista, pessoa capaz de lidar ou utilizar o lixo de forma eficiente.
Os três homens perseguiram o pobre mendigo no decubito do calçamento público por aproximadamente dez metros, até que um dos três, num chute certeiro, acompanhado do ligeiro estender dos braços, conseguiu deter o miserable numa semi imobilização. O trio começou a espancar aquele ser que a vista dos diversos olhares que passavam, que aguardavam um ônibus qualquer, ou que simplesmente transitavam sem objetivo algum, parados a frente de um bar, desperdiçando o tempo e as palavras em qualquer discussão tola. Aquela coisa cinzenta e inodora - na perspectiva do meu ponto de observação - se contorcia e urrava, intercalando um abafado pedido de socorro que se perdia em meio aos socos e pontapés, enquanto todos, incluindo este narrador, absorviam a cena que se desenrolava,atônitos com o transcorrido injusto. A brutalidade da cena estava ali; clara e evidente diante de nossos olhos. Uma covardia inebriante e contagiosa se espalhou pelo ar junto com o zunido dos automóveis.
Eu poderia ter tentado coibir a agressão; ter filmado com meu moderno celular e sua sofisticada câmera digital; poderia ter chamado a polícia, denunciado o crime e ter produzido depoimento para eventual processo, mas eu fiz a escolha mais fácil, prática e frouxa do ponto de vista moral que foi não perder meu ônibus que parara diante de mim.
Embarquei no exato momento em que a bota pesada de um dos agressores pressionava a cabeça imóvel da pobre vítima sobre o concreto do calçamento.
Sob todos os aspéctos, a vitima me parece, no exato momento em que escrevo, mais digna que eu.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Saudades de VÊNUS

Diante dos meus olhos paira o negro dos teus cabelos
Na distância de um abraço e num percurso de abismo.

A impossibilidade de beijar-te trespassa meu coração
Numa tortura de horas continuadas na morna lentidão
abrangendo teu cheiro; o toque dos dedos; o feitiço dos lábios.

Me possui aquela ansiedade como se diante de ti
Eu me despisse com todos os meus sonhos a mostra;
Apenas como se pensar na tua presença me suprisse
Do desejo pulsante que desfigura toda lógica e razão.

Mas estás tão presente quanto a névoa vista e não tocada
Dispersada quando tateamos nos caminhos das cintilâncias.

Teu corpo atravessa meus conceitos de pura e ideal beleza
Atingindo a perfeição da Vênus de Milo banhada do solstício.

O teu seio palpita com a descoberta dos sabores ocultos
Como se minhas mãos foram as formas que o moldaram já.

Onde estivesses, quisera tua pele impregnada de mim
Da minha ânsia dissimulada, do meu delírio desejoso!

Na tua ausência minha saudade se distrai na vontade
De apoderar-se do futuro e te trazer ao meu instante
e possuir-te enquanto desaparecem as sombras do aqui.

BREVE DESPEDIDA

Gostaria de ser areia da praia
A ponta de lança dos raios solares
O mormaço no vento que sopra
O cristal salgado nas ondas a crepitar
para marcar tua alma e teu corpo impregnar.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FOR MY SOUL

Estava dividido qual ponte Kafkiana
entre a biografia de Virgínia Woolf
e a composição de tua expressão retrátil;
procurando compreender teu paradoxo
ao lembrar teus solos harmoniosos e de,
nunca ver-te a ler romances amorosos.

Temo que sejas tão contraditória entre
teus projetos e o poema concreto do agora
quanto o retrato "Dora" de Picasso
sob o mantra de teus clowns azuis.

Aquele "o beijo" 'stá gravado num abstrato
oculto do mundo e presente na memória
na infinitude de todos os beijos a vir.

Todos os livros tem ainda um cheiro distinto
cada um; um espelho cego de mágoas obscurecidas
no nervosismo a en-feiar vossos passos na
[sandália preta
de la niña artista que siempre fuera.

Passei a ser inquirido por causa dos teus olhos
de teus óculos primeiros ainda que são
uma armação em vermelho sobre o rubro
a contornar o acabamento de "uma mente brilhante".

Se nunca concordei com tuas dedicatórias
foi a humildade bruta e possuída
d'um juízo lato e dissimulado pelo Eros.

La tu misiqué se há transformado ao ponto
de tornar-se cousa outra mais profunda que
todos os perguntamentos da adolescência tua
mente; mutando-se a ponto de não reconhecer
[teu corpo.

Houve um momento em que perdestes todas
[as direções
naquel'outro turbilhão de som e fúria
[aprofundada
nas cicatrizes e na torpe letra de ressequida
[árvore.

A tua presença tornou-se tão distante
quanto o contínuo fluxo de poetizar-te.

eu que sempre combati com as palavras
numa repetida e teimosa luta vã de fazer
minhas as tuas palavras na ironia de um prefácio.

Deu-se o matrimônio entre poesia e ideal
um finale, contínuo recomeçar qual ciclone
a distorção que se forja ao abrir-se com força
todas as janelas das possibilidades entre
o suicídio e escrever um romance moderno.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O CAVALO DE TRÓIA

O homem atravessou a rua apressadamente, parecia atrasado par alguma coisa pelo modo como olhou para o relógio tirado do bolso, preso a uma corrente; talvez uma reunião, um encontro ou simplesmente porque resolvera consigo mesmo, um daqueles compromissos internos de não se atrasar, mesmo que não tivesse algo ou um horário específico para cumprir. Estancou na beirada do meio fio por um instinto contrário a sua voluntariedade, porque um veículo ao ultrapassar o farol vermelho quase o atropelou – pelo menos pode pressentir isso pelo vento que lhe tocou o rosto. O homem mexeu os lábios numa espécie indecifrável de resmungo por baixo do bigode espesso. Algumas pessoas que liam o jornal enquanto tomavam café na Coffee Express da esquina repararam de viés quando o veículo cantarolou um sol oitavado, virando a esquerda em alta velocidade. Advertido por esse pequeno incidente, o homem olhou para a pista nas duas direções antes de atravessar a rua. Diminuiu o ritmo dos passos e ajeitou seu chapéu de feltro com a mão direita. Na mão esquerda, mais propriamente debaixo do braço esquerdo o homem trazia um livro e um jornal dobrado no meio a partir do dorso. Desaparecera toda pressa como se uma mágica ou algo sobrenatural tivesse feito desaparecer a agitação do coração que até aquele momento vinha mantendo os passos acelerados se bem que o homem não acreditasse nem em uma nem na outra. Talvez a parada brusca sobre a primeira linha da faixa de pedestres tenha produzido o efeito. Parou na frente da primeira banca de jornal, tirou o chapéu que deixava uma marca redonda permanente nos cabelos de um negro profundo e lustroso e analisou rapidamente as primeiras páginas e continuou; aparentemente contado os passos sobre a calçada de piso quadriculado preto e branco como um extenso tabuleiro de xadrez cujas peças eram inúmeras e descaracterizadas figuras humanas. Caminhou uns trinta metros e parou novamente do lado oposto da rua em que um pequeno grupo de manifestantes protestava em frente ao prédio de mármore – ou seria outro material? Para efeitos da nossa narrativa trata-se de mármore, mas é bem possível se questionar essa afirmação. O mármore bege parecia bem mais claro devido ao reflexo do sol, pois o dia ia por volta das quatro e meia da tarde. De um lado os manifestantes produziam um zunido indecifrável e do outro lado – diga-se na mesma calçada – guardas em uniformes azul escuro; amarrotados combinados com bonés da mesma cor opaca. No meio dos manifestantes, duas faixas brancas com dizeres sem conexão, levantavam e se dobravam com o vento, desaparecendo no meio das pessoas. Passaram-se uns vinte minutos até que ema pequena multidão atravessou o viaduto e juntou-se aos demais, formando uma massa indistinta cujo zunido ainda indistinto triplicou. O tumulto sem forças em principio foi tomando maiores proporções até que desencadeou um conflito. Os guardas empurravam a multidão com cassetetes tentando impedir-lhes o avanço. O boné de um dos guardas voou sobre a multidão. Quando o homem percebeu que da direção oposta a que viera a multidão avançava uma tropa montada em cavalos fortes e resfolegantes, atravessou a rua rapidamente e juntou-se aos manifestantes que se agitavam em polvorosos frente aos empurrões dos guardas. Quando a tropa de choque foi incorporada à multidão recuou e cessaram as agressões. Até o barulho foi reduzido a um murmurar que observava o que se daria dali em diante. Sem saber quanto tempo se passara, o homem observava a estrutura gigantesca do prédio que se recolhia em sua cor natural na medida em que o céu se encolhia de sua claridade ao pôr do sol. Nada resolvido até o final da tarde, a multidão foi tomada pela fúria e o alvoroço disparou o ânimo do pequeno contingente policial. Um empurrão lançou um dos manifestantes sobre um dos guardas montados e os cavalos se agitaram num efeito dominó desenfreado. Um barulho agudo e sem ritmo começou a apitar desconfortavelmente dentro do ouvido do homem e sua cabeça começou a doer. Com gestos frenéticos o homem atravessou a multidão aos empurrões; a cabeça a frente do corpo e inexplicavelmente o chapéu não lhe caiu da cabeça. O homem soltou o livro e o jornal e abraçou-se ao pescoço do cavalo, que se inclinou para trás alçando o homem ainda agarrado ao seu pescoço, numa espécie de decolagem, retirando os pés do chão e sendo sacudido no ar em movimentos repetidos em sentido contrária ao que ia o rabo do animal. O policial montado tentava desgrudar o homem do cavalo dando-lhe violentas cacetadas. Era impressionante a força do homem que nem apresentava uma condição física avantajada. Depois de diversas pancadas por todo o corpo, o homem exausto finalmente caiu desacordado. Dois guardas saíram carregando o homem e o entregaram a dois funcionários da ambulância solicitada para o atendimento de possíveis feridos. Identificaram o homem por uma folha de papel no bolso de seu casaco: Frederico Nietzsche, professor convidado da universidade de Berlin. Daquele dia em diante o homem não disse mais uma palavra, apesar de ter vivido por mais dez anos. O filólogo estava louco.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A teologia está morta. Resta-nos apenas teologisar.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O HOMEM DE CHAPÉU

para meu avô Joaquim dos Santos

A vasta memória da serra
vislumbra o homem nú, cerrado
que veste apenas um chapéu
puído-botado. Viajante seguro
vindo das entranhas acinzentadas
pelas corredeiras secadas
e seu leito de pedras lisas
imunes a escaldante esfera afogueada.

O homem para com um
olhar semiabertura e suga
vorasmente a refrescante cabaça.
Retira de seu bornar um
taco moroso e doce do que
lhe restou dessas andanças.

Passa na testa sulcada
mãos grossas e vergadas
de batalhar a terra e colher
seu fruto chamuscado e tardio.

Este é homem que não lamenta
resignado com seu destino,
É uma rocha vermalha qual
cume da velha montanha
sob a qual séca-se-a sementeira.

Volta à terra, pó que o deu
e o tomou. Pó do pó nos
pés atados a chinéla, a correia
a chibata e ao arreio.

Homem que parte e não
lamenta ter vivido solitário
todas as vidas que viveu.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Modigliani

"A arte é apaixonada pela vida" C.S.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

ROSA-AMO

Sorriso discreto desenhado na tela
teu rosto [distinto rosto]
Belo!
Seria esse teu sorriso uma fragilidade;
sensibilidade não confessa,
ou a melancolia de uma alma tão triste?

Teu corpo de busto coberto atende a porta
sou quem bate;
procuro uma conversa,
agradável conversa.
Falamos sobre música, um filme.
Gostaria de dizer outras frases, incólumes;
mas em sã consciência.
Falta-me a coragem!
Talvez passados uns dias
quando meu sentimento já não for um lamento velado
eu a tenha, fixada
com teus olhos tão pequenos;
com tua pele tão mediterrânea
com nossa comum propensão a sensibilidade
até mesmo depressivas.

Mas perdi essa cumplicidade. Onde a deixei?
o que tínhamos irremediavelmente
se foi. Ficou petrificada "la soledad".

Que então fui?
Um amigo?
Um poeta?
Um musicista com melodia incerta?
fui palavras, um rosto?
Temo que tenha sido nada.
Mas tu, carinho, Naíade
Foi completude perfeita.
Ficou a saudade!